ÁREA DE CIÊNCIAS DA NATUREZA
A
sociedade contemporânea está fortemente organizada com base no
desenvolvimento científico e tecnológico. Desde a busca do controle dos
processos do mundo natural até a obtenção de seus recursos, as ciências
influenciaram a organização dos modos de vida. Ao longo da história,
interpretações e técnicas foram sendo aprimoradas e organizadas como
conhecimento científico e tecnológico, da metalurgia, que produziu
ferramentas e armas, passando por motores e máquinas automatizadas até
os atuais chips semicondutores das tecnologias de comunicação, de
informação e de gerenciamento de processos. No entanto, o mesmo
desenvolvimento científico e tecnológico de notáveis progressos na
produção e nos serviços também pode promover impactos e desequilíbrios
na natureza e na sociedade, que demandam outras sabedorias, não somente
científicas, para serem compreendidos e tratados.
Discutir
alimentos, medicamentos ou combustíveis, ou debater transportes,
saneamento, informação ou armamentos envolve conceitos e questões das
Ciências da Natureza, tanto quanto cogitar sobre a manutenção da vida na
Terra ou sua existência fora dela, sobre a evolução das espécies ou do
universo. Isso por si só justifica, na formação escolar, a presença
dessas ciências, que têm em comum a observação sistemática do mundo
material, com seus objetos, substâncias, espécies, sistemas, fenômenos e
processos, estabelecendo relações causais, fazendo e formulando
hipóteses, propondo modelos e teorias e tendo o questionamento como base
da investigação e a experimentação como critério de verificação.
A
área de conhecimento Ciências da Natureza, no Ensino Fundamental, é
representada por um único componente de mesmo nome, enquanto que, no
Ensino Médio, o ensino é distribuído entre os componentes curriculares
Biologia, Física e Química.
O
ensino de Ciências da Natureza tem compromisso com uma formação que
prepare o sujeito para interagir e atuar em ambientes diversos,
considerando uma dimensão planetária, uma formação que possa promover a
compreensão sobre o conhecimento científico pertinente em diferentes
tempos, espaços e sentidos; a alfabetização e o letramento científicos; a
compreensão de como a ciência se constituiu historicamente e a quem ela
se destina; a compreensão de questões culturais, sociais, éticas e
ambientais, associadas ao uso dos recursos naturais e à utilização do
conhecimento científico e das tecnologias.
Uma
formação com essa dimensão visa capacitar as crianças, os jovens e os
adultos para reconhecer e interpretar fenômenos, problemas e situações
práticas, como, por exemplo, questões associadas à geração e ao
tratamento de lixo urbano e à qualidade do ar de nossas cidades, ao uso
de agrotóxicos em nossas lavouras, a partir de diferentes visões de
mundo, contextos e intencionalidades, para que esses sujeitos possam
construir posições e tomar decisões argumentadas, perante os desafios do
seu tempo.
O
ensino das Ciências da Natureza, nos anos iniciais de escolaridade,
contribui com a alfabetização, ao mesmo tempo em que proporciona a
elaboração de novos conhecimentos. É importante que as crianças tragam
para a escola suas vivências e seus saberes, que devem ser tratados de
acordo com o que cabe a essa etapa.
Nos
anos finais do Ensino Fundamental, ampliam-se os interesses pela vida
social, há uma maior autonomia intelectual. Isso permite o tratamento de
sistemas mais amplos que dizem respeito às relações dos sujeitos com a
natureza, com as tecnologias e com o ambiente, no sentido da construção
de uma visão própria de mundo.
No
Ensino Médio, com a maior maturidade de jovens e adultos, os conceitos
de cada componente curricular – Biologia, Física e Química – podem ser
aprofundados em suas especificidades temáticas e em seus modelos
abstratos, ampliando a leitura do mundo físico e social, o enfrentamento
de situações relacionadas às Ciências da Natureza, o desenvolvimento do
pensamento crítico e tomadas de decisões mais conscientes e
consistentes.
Para
essa formação ampla, os componentes curriculares da área de
conhecimento Ciências da Natureza devem possibilitar a construção de uma
base de conhecimentos contextualizada, envolvendo a discussão de temas
como energia, saúde, ambiente, tecnologia, educação para o consumo,
sustentabilidade, entre outros. Isso exige, no ensino, uma integração
entre conhecimentos abordados nos vários componentes curriculares,
superando o tratamento fragmentado, ao articular saberes dos componentes
da área, bem como da área Ciências da Natureza com outras. Por exemplo,
ao tratar o tema energia no Ensino Médio, os/as estudantes, além de
compreenderem sua transformação e conservação, do ponto de vista da
Física, da Química, da Biologia, podem também percebê-lo na Geografia,
sabendo avaliar o peso das diferentes fontes de energia em uma matriz
energética, considerando fatores como a produção, os recursos naturais
mobilizados, as tecnologias envolvidas e os impactos ambientais. Ainda,
pode-se perceber a apropriação humana dos ciclos energéticos naturais
como elemento essencial para se compreenderem as transformações
econômicas ao longo da história.
Sob
a perspectiva dos métodos empregados para a aprendizagem, o ensino das
Ciências da Natureza será realizado a partir de diferentes estratégias e
com o uso de múltiplos instrumentos didáticos, buscando sempre promover
o encantamento, o desafio e a motivação de crianças, jovens e adultos
para o questionamento. Para tal, deve mobilizar elementos lúdicos, por
exemplo, como forma de promover a interação dos/as estudantes com o
mundo, desde a Educação Infantil até o final do Ensino Médio, com
múltiplas alternativas de ação, como recursos tecnológicos de informação
e comunicação, jogos, brinquedos, modelos e exemplificações. Também a
investigação prática e conceitual deve ser exercitada, com desmontes
analíticos, uso de manuais de referência e sites de busca, respeitando o
estágio de maturidade de cada etapa ou ano. Dessa forma, uma questão
que pode ser formulada e trabalhada de modo elementar e imediato em uma
aula do início do Fundamental, por exemplo, envolvendo a conservação ou a
deterioração de alimentos, pode dar lugar a uma investigação mais
demorada e profunda, individual ou coletiva, em etapas mais avançadas da
Educação Básica.
Garantidos
esses pressupostos, o ensino de Ciências da Natureza deve cumprir o
compromisso de colaborar na formação intelectual e emocional de
crianças, jovens e adultos para a atuação consciente no mundo, seja na
esfera social, pessoal ou do trabalho, seja para a continuidade dos
estudos, capacitando-os para compreender as questões científicas,
tecnológicas, ambientais e sociais que continuamente se apresentam. Essa
formação é possível em uma escola onde são acolhidos diferentes
saberes, manifestações culturais e visões de mundo. Essa instituição
deve se constituir como um espaço de heterogeneidade e pluralidade, que
valoriza a diversidade e se pauta em princípios de solidariedade e
emancipação. Com isso, cabe-lhe promover o envolvimento dos sujeitos da
comunidade escolar e extraescolar em projetos educacionais, voltados
para a compreensão e a participação em questões globais e do entorno
social, e em produções representativas das culturas que se expressam na
coletividade.
Considerando
as diferentes dimensões formativas mencionadas, é proposta uma
organização dos conhecimentos das Ciências da Natureza em eixos que
possam estruturar o currículo e possibilitar a articulação entre
componentes curriculares. É importante ressaltar que os eixos guardam
relações próximas, uma vez que representam um todo que se divide para
imprimir ênfase em uma ou outra dimensão. São quatro os eixos
estruturantes do currículo nas Ciências da Natureza:
- Conhecimento conceitual das Ciências da Natureza – neste eixo são enfatizados os conteúdos conceituais específicos de cada componente curricular – o saber sistematizado, leis, teorias e modelos. Os conteúdos conceituais poderão ser propostos no currículo a partir de estudos sobre fenômenos, processos e situações que suscitam o domínio de conhecimentos científicos para a sua compreensão.
- Contextualização histórica, social e cultural das Ciências da Natureza – neste eixo são tratadas as relações entre conteúdos conceituais das Ciências da Natureza e o desenvolvimento histórico da ciência e da tecnologia; o papel dos conhecimentos científicos e tecnológicos na organização social e formação cultural dos sujeitos e as relações entre ciência, tecnologia e sociedade. Dessa forma, o currículo deve apontar para estudos de temas de relevância social, a partir dos quais articulações entre diferentes áreas poderão ser feitas.
- Processos e práticas de investigação em Ciências da Natureza – neste eixo é enfatizada a dimensão do saber fazer, proporcionando-se aos/às estudantes uma aproximação com os modos de produção do conhecimento científico. O saber fazer, compreendido não somente como uma metodologia, busca a apropriação da metodologia como um objeto de estudo. Nesse sentido, o currículo propõe estudos sobre processos de construção de modelos científicos, práticas de investigação científica (questões e procedimentos de pesquisa adequadas ao contexto escolar), uso e produção de tecnologias, considerando as especificidades do contexto escolar.
- Linguagens das Ciências da Natureza – neste eixo é ressaltada a importância do domínio das linguagens específicas das Ciências da Natureza e das múltiplas linguagens envolvidas na comunicação e na divulgação do conhecimento científico.
As
dimensões formativas representadas por esses eixos orientam a
proposição de um currículo que aproxima o conhecimento do mundo das
crianças, dos jovens e dos adultos, orientando sua atuação em diferentes
práticas sociais: em práticas da vida cotidiana, culturais, do
trabalho, da comunicação e da cidadania. Para isso, a escolha de
unidades de conhecimento deve ser feita com atenção aos seguintes
pontos: incluir conteúdos conceituais que são fundamentos do
conhecimento da área e que se articulem com saberes da prática; incluir
processos cognitivos relativos à investigação e à resolução de problemas
que possam auxiliar o exercício da cidadania e a tomada de decisão
socialmente responsável, e possibilitar o tratamento progressivo e
recursivo de conceitos ao longo do currículo. Dessa maneira, o ensino
das Ciências da Natureza pode ser desafiador para crianças, jovens e
adultos, levando-os a refletirem sobre as culturas das quais participam,
em uma sociedade em que a ciência é instrumento para a interpretação de
fenômenos e problemas sociais. Contribui, também, para buscar formas de
intervenção pessoais e coletivas, para promover consciência e assumir
responsabilidade, com a alegria de quem não precisa memorizar respostas,
mas pode, a todo o tempo, fazer perguntas, apresentar e enfrentar
dúvidas.
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